A juventude eterna


Consciente ou inconscientemente, a humanidade tem buscado fórmulas para uma juventude mais duradoura. Como sabemos, a literatura de inúmeros povos é rica em textos sobre a juventude eterna. Sabemos, porém, que essa juventude secular não passa de uma ilusão que se contrapõe a um fator mais importante: envelhecer com sabedoria.
O milenar budismo tem na compreensão da velhice um dos eixos de sua filosofia. Somando-se ao nascimento, à doença e à morte, a inexorável velhice é tratada no budismo como um dos quatro maiores sofrimentos do ser humano, pois junto com ela vem o temor da inatividade, do descontrole do corpo e da mente, do abandono, da irrelevância social etc.
A humanidade convive com esse fato no seu dia-a-dia e a preocupação do budismo com esse fator natural é prova cabal de que ele não pode ser praticado fora da realidade.
A velhice causa um sofrimento eterno à humanidade justamente por estarmos na maioria das vezes iludidos em relação ao rumo que daremos à nossa existência. A juventude é sempre valorizada como uma dádiva, e não como um período de preparação para o inevitável futuro. Esse drama pode ser muito bem ilustrado pela parábola do pássaro Kankutyo, que mora numa fria montanha. Durante a noite, ele chora, lamenta pelo frio que está passando e promete construir seu ninho na manhã seguinte. Mas quando amanhece e o Sol começa a surgir, ele se esquece do frio, brinca irresponsavelmente até que chega o gélido vento do crepúsculo e volta a lamentar-se novamente.
Embora o envelhecimento seja um processo de anos, e o dia-a-dia do pássaro Kankutyo denote uma falta de atitude imediata, em ambos os casos a questão é a filosofia com base na qual se conduz a vida. E a vida é sempre uma questão de atitude imediata diante do carma. Eis porque, na Soka Gakkai, sempre se faz questão de treinar os jovens, pois disso depende uma existência proveitosa e uma velhice sábia.
No universo budista, não há velhice no conceito secular da palavra. A velhice secular só existe para aqueles que se esquecem do objetivo da prática da fé. Não raro, encontramos algumas pessoas lamentando que, depois que envelheceram, perderam seu lugar na organização, mas que sequer esforçam-se para pôr em prática todo seu conhecimento, experiência e sabedoria desenvolvidos no decorrer dos anos. Chega a ser contraditório.
Claro que a velhice é, secularmente falando, difícil de se aceitar. Mas o que é importante ser compreendido é que existem dois pontos importantes quanto à velhice: o primeiro é a velhice física, inevitável; e o segundo é justificar a inatividade intelectual dada à velhice física. E no que tange ao intelecto e à sabedoria, não se pode permitir ser dominado pela velhice.
Numa ocasião, o presidente Ikeda assim afirmou sobre a fé e o intelecto: “A fé é a derradeira essência do intelecto. Pela prática correta da fé, o intelecto brilha. A inteligência sem uma fé correta carece de uma firme âncora no solo da vida e, conseqüentemente, se torna desordenada.” (Brasil Seikyo, edição no 1.209, 6 de fevereiro de 1993, pág. 6.) Então, não é exagero interpretar que essa fé que ancora o intelecto é justamente o fator de jovialidade. O corpo pode não permitir mais exageros, mas a mente é insuperável!
Numa outra ocasião, o presidente Ikeda orientou: “A fé é o que nos torna jovens. A firme fé e a resoluta oração — nossa profunda determinação interior ou concentração de nossa mente fortalece nossa energia vital. Quando os senhores acreditam naquilo que é certo, quando direcionam seus pensamentos no rumo correto, obtêm a correta fé que conduz à felicidade. Nós, que praticamos a Verdadeira Lei, possuímos a suprema fé. Esta é a razão porque somos tão jovens e repletos de vigor e energia.” (Ibidem, edição no 1.218, 13 de março de 1993, pág. 4.) Então, fé é ação! E essa ação é a própria jovialidade que se eterniza em nosso carma.
Por esse prisma, podemos afirmar, sem medo de errar, que embora o corpo pereça com a velhice, é a mente, ou seja, a postura e a ação mentais do indivíduo, que o tornam eternamente jovem. Esse aprendizado prático, a ação de viver e direcionar a vida para rumos corretos, é que se transforma em nosso carma e é esse o fator que acumulamos existência após existência, tornando-nos eternamente jovens. É a juventude espiritual que importa; a juventude do espírito de procura. A juventude eterna do ponto de vista secular não passa de uma heresia, pois despreza a verdadeira natureza da vida e faz o ser humano buscar falsos horizontes.
E não se poderia deixar de relembrar algo tão dito e pouco praticado: quantos jovens já não se tornaram velhos pelo simples fato de terem abandonado o desafio de viver corretamente? E quantos veteranos deixaram de ser veteranos e se tornaram velhos, pelo simples fato de encararem a velhice física como limitadora da batalha do intelecto e da sabedoria contra a maldade que é inerente à vida?
O budismo nos oferece a fonte para vivermos de forma jovial, pois nos ensina o espírito de procura. Permitir-se deixar de lado o espírito de procura é condenar-se a envelhecer no sentido mais desagradável que a palavra permite interpretar: desatualizar-se, tornar-se obsoleto, em desuso. Essas são as perspectivas que a maioria das pessoas enxergam quando não têm uma verdadeira filosofia de vida.

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